{"id":1431,"date":"2014-08-07T14:51:57","date_gmt":"2014-08-07T17:51:57","guid":{"rendered":"http:\/\/www.planetalar.com.br\/?p=1431"},"modified":"2021-01-22T20:19:15","modified_gmt":"2021-01-22T23:19:15","slug":"voce-prefere-que-seu-filho-seja-inteligente-ou-esforcado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.webreal.com.br\/sistema\/2014\/08\/07\/voce-prefere-que-seu-filho-seja-inteligente-ou-esforcado\/","title":{"rendered":"Voc\u00ea prefere que seu filho seja inteligente ou esfor\u00e7ado?"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 dif\u00edcil e trabalhoso criar filhos para que sejam felizes, s\u00e9rios e realizados. J\u00e1 estraga-los \u00e9 tarefa mais f\u00e1cil. H\u00e1 v\u00e1rias maneiras de transformar uma crian\u00e7a promissora em um adulto miser\u00e1vel. As mais comuns t\u00eam a ver com o desamor, a repress\u00e3o, a agressividade e o rigor excessivo com que muitos pais tratam os filhos. A rea\u00e7\u00e3o a essas falhas hist\u00f3ricas causou o problema oposto: uma vontade dos pais, nas \u00faltimas gera\u00e7\u00f5es, de aumentar a autoestima filial de qualquer jeito. Em ingl\u00eas, em italiano e franc\u00eas, a palavra mimar significa estragar. \u00c9 poss\u00edvel tamb\u00e9m arruinar o futuro de uma crian\u00e7a de maneira muito amorosa, com a melhor das inten\u00e7\u00f5es. Veja experimentos a seguir, conduzidos pela psic\u00f3loga de Stanfoprd Carol Dweck (dispon\u00edveis em twitter.com\/gioschpe).<!--more--><\/p>\n<p>Dweck e colegas trabalharam com algumas centenas de crian\u00e7as americanas de 11 anos. Todas elas precisaram fazer um teste de intelig\u00eancia.<\/p>\n<p>No primeiro teste, as crian\u00e7as deveriam resolver dez problemas de dificuldade m\u00e9dia. Depois que elas terminavam, o experimentador corrigia o exame e dizia a cada uma delas: &#8220;Uau, voc\u00ea foi muito bem nesses problemas! Acertou [x] quest\u00f5es. Essa \u00e9 uma pontua\u00e7\u00e3o muito alta!&#8221;. Essa frase foi dita a todas as crian\u00e7as, independentemente do seu desempenho real: as crian\u00e7as ouviram um [x] igual ou superior a oito. Na etapa seguinte, elas ouviam mais uma frase, e \u00e9 aqui que o experimento come\u00e7a a ficar interessante. Um grupo de crian\u00e7as, escolhido aleatoriamente, recebia um elogio ao seu esfor\u00e7o: &#8220;Voc\u00ea dese ter trabalhado duro para resolver esses problemas&#8221;.<\/p>\n<p>Um terceiro grupo n\u00e3o ouviu nada al\u00e9m da informa\u00e7\u00e3o sobre sua pontua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Depois dessa primeira rodada, o experimentador perguntava que tipo de problema a crian\u00e7a queria resolver, dando a ela quatro op\u00e7\u00f5es. Uma delas tinha o objetivo de aprendizado (&#8220;problemas com os quais eu aprenderei muito, mesmo que n\u00e3o aparente ser muito esperto&#8221;), enquanto as outras tr\u00eas tinham como objetivo mostrar sua habilidade (&#8220;problemas que sejam f\u00e1ceis, para que v\u00e1 bem&#8221;). Independentemente do que cada crian\u00e7a escolhia, todas elas receberam uma segunda batelada de dez problemas &#8211; desta vez com um n\u00edvel de dificuldade bem mais elevado.<\/p>\n<p>Os experimentadores ent\u00e3o diziam \u00e0s crian\u00e7as que elas tinham ido muito mal nessa segunda rodada, acertando meos da metade dos problemas (mesmo que, na verdade, elas tivessem acertado mais do que isso). Depois de receberem esse &#8220;feed-back&#8221; negativo, as crian\u00e7as respondiam se queriam continuar a resolver problemas, quanto gostavam de resolve-los, que autoavalia\u00e7\u00e3o faziam e como explicavam o seu desempenho. Finalmente, as crian\u00e7as precisavam resolver resolver um terceiro grupo de dez problemas. Essa \u00faltima batelada de perguntas tinha o mesmo n\u00edvel de dificuldade do primeiro grupo de problemas. Ent\u00e3o os pesquisadores tabularam os resultados, tanto do desempenho nos exerc\u00edcios quanto nas perguntas finais.<\/p>\n<p>O incr\u00edvel desse experimento e de outros semelhantes \u00e9 o enorme impacto que uma simples frase teve no comportamento das crian\u00e7as. Aquelas que receberam elogio por sua intelig\u00eancia atribu\u00edram seu desempenho ao seu talento, enquanto as que receberam elogio por seu esfor\u00e7o atribu\u00edram seu resultado a qu\u00e3o duro havam trabalhado. O tipo de problema que as crian\u00e7as optaram por resolver nas etapas seguintes tamb\u00e9m foi significativamente influenciado pelo coment\u00e1rio do experimentador: 67% daquelas que receberam elogios por sua intelig\u00eancia preferiam trabalhar em problemas f\u00e1ceis que lhes permitissem continuar parecendo inteligentes, enquanto 92% das elogiadas por seu esfor\u00e7o queriam problemas em que pudessem aprender mais. As crian\u00e7as elogiadas por sua intelig\u00eancia explicaram seu desempenho em termos de habilidades fixas, enquanto aquelas elogiadas por seu esfor\u00e7o o explicaram em termos da intensidade de energia que devotaram aos problemas. Como o talento \u00e9 fixo, mas o esfor\u00e7o \u00e9 mut\u00e1vel, as crian\u00e7as que atribu\u00edram seu sucesso ao talento sofreram um baque quando fracassaram. Elas perseveraram menos nos problemas e declararam gostar menos de resolv\u00ea-los do que aquelas elogiadas por seu esfor\u00e7o.<\/p>\n<p>Agora eis aqui a parte mais interessante e preocupante. Na primeira batelada de problemas, as crian\u00e7as dos tr\u00eas grupos tiveram um desempenho indistingu\u00edvel. J\u00e1 na terceira rodada, depois que elas passaram pelos elogios da primeira e pelo fracasso na segunda, as diferen\u00e7as foram marcantes.<\/p>\n<p>As crian\u00e7as que n\u00e3o receberam elogio algum tiveram uma leve melhoria no acerto, de 0,13 pergunta. As crian\u00e7as que receberam elogios por seu esfor\u00e7o tiveram uma melhoria significativa, de 1,21 pergunta. Aquelas elogiadas por sua intelig\u00eancia tiveram um decr\u00e9scimo significativo, de 0,92 pergunta.<\/p>\n<p>Uma m\u00edsera frase de um experimentador desconhecido fez com que o desempenho das crian\u00e7as tivesse uma varia\u00e7\u00e3o de mais de 20%. Imagine o efeito cumulativo de um tratamento semelhante feito por algu\u00e9m que uma crian\u00e7a ama e admira, como os pais ou, em menos escala, os professores.<\/p>\n<p>Acho incr\u00edvel a quantidade de pessoas que, vindas de fam\u00edlias est\u00e1veis financeira e emocionalmente e tendo cursado boas escolas, n\u00e3o realizam nada de significativo na vida. Passam a carreira inteira sem gostar do que fazem, em empregos que n\u00e3o oferecem riscos, sempre dizendo querer fazer outra coisa. S\u00e3o focadas n\u00e3o em chegar ao seu m\u00e1ximo, mas em evitar o fracasso, a dor, a frustra\u00e7\u00e3o. Para algu\u00e9m que teve seu desempenho atribu\u00eddo ao talento &#8211; e n\u00e3o ao esfor\u00e7o -, o fracasso significa o desmonte da autoestima, e \u00e9 evitado a todo custo.<\/p>\n<p>Lembrei-me tamb\u00e9m de outro experimento, conduzido por Dan Ariely, em que homens de meia-idade deviam colocar a m\u00e3o em uma bacia de \u00e1gua pelando. Precisavam ent\u00e3o identificar quando come\u00e7avam a sentir dor. Ariely mediu tamb\u00e9m quanto tempo cada um deles conseguia deixar a m\u00e3o submersa. Os homens em quest\u00e3o faziam parte de um clube para feridos do Ex\u00e9rcito israelense, classificados em dois grupos: o daqueles que passaram por dor moderada (quebrar um cotovelo, por exemplo) e o dos que tiveram de lidar com dores muito fortes e duradouras (v\u00edtimas de minas). Aqueles que tinham experimentado a dor forte, mesmo que d\u00e9cadas antes, demoraram o dobro do tempo para dizer que sentiam dor e deixaram a m\u00e3o na \u00e1gua quente pelo dobro do tempo dos que passaram por dor moderada. Nietzsche tinha raz\u00e3o: o que n\u00e3o mata fortalece.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que n\u00e3o estou aqui sugerindo que voltemos ao passado tenebroso em que os pais faziam da vida dos filhos um calv\u00e1rio sob desculpa de os estarem &#8220;preparando para a vida&#8221;. Mas parece claro que, com toda a cascata de elogios, massagens na autoestima, &#8220;\u00e9 um g\u00eanio!&#8221; pra l\u00e1 e pra c\u00e1, estamos prestando um desservi\u00e7o aos nossos filhos (e alunos) e criando uma gera\u00e7\u00e3o de fracos. \u00c9 justo e elogi\u00e1vel que pais queiram preparar os filhos para o sucesso. Mas lidar com o sucesso \u00e9 relativamente f\u00e1cil. Se queremos que nossos filhos realizem todas as suas potencialidades &#8211; e busquem sempre aument\u00e1-las &#8211; , precisamos mesmo \u00e9 prepar\u00e1-los para o fracasso. O segredo n\u00e3o \u00e9 evitar a queda, mas conseguir se levantar. E seguir a caminhada.<\/p>\n<pre>Fonte: Revista Veja\n Por: Gustavo Ioschpe<\/pre>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 dif\u00edcil e trabalhoso criar filhos para que sejam felizes, s\u00e9rios e realizados. J\u00e1 estraga-los \u00e9 tarefa mais f\u00e1cil. 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