{"id":1018,"date":"2014-04-22T13:33:34","date_gmt":"2014-04-22T16:33:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.planetalar.com.br\/?p=1018"},"modified":"2021-01-22T21:15:36","modified_gmt":"2021-01-23T00:15:36","slug":"os-dados-sabem-mais-sobre-voce-do-que-voce-mesmo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.webreal.com.br\/sistema\/2014\/04\/22\/os-dados-sabem-mais-sobre-voce-do-que-voce-mesmo\/","title":{"rendered":"Os dados sabem mais sobre voc\u00ea do que voc\u00ea mesmo"},"content":{"rendered":"<p>Com um smartphone e seus sistemas de GPS e c\u00e2meras, as pessoas v\u00e3o deixando rastros sobre seus gostos e desejos: os lugares que frequentam, os pratos prediletos, os amigos com os quais conversam. O conjunto desse enorme volume de informa\u00e7\u00f5es permite que empresas saibam o que um consumidor realmente quer com mais efic\u00e1cia do que ele mesmo.<\/p>\n<p>A opini\u00e3o \u00e9 do alem\u00e3o Andreas Weigend, 54, especialista em &#8220;big data&#8221;, que \u00e9 o conjunto de tecnologias que permitem coletar e analisar grandes volumes de dados e tentar tirar conclus\u00f5es sobre o que eles revelam.<\/p>\n<p>Weigend, que foi cientista-chefe da Amazon e hoje d\u00e1 aulas na Universidade Stanford e presta consultoria, concentra-se nos aspectos sociais e comerciais desse fen\u00f4meno: o que informa\u00e7\u00f5es como a lista de amigos no Facebook ou localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica indicam sobre o comportamento do consumidor.<\/p>\n<p>Segundo ele, &#8220;os dados sabem mais sobre voc\u00ea do que voc\u00ea mesmo&#8221;.<\/p>\n<p>Weigend veio ao Brasil no come\u00e7o deste m\u00eas para confer\u00eancias e falou com a Folha. Leia abaixo trechos da entrevista.<br \/>\n<b>Folha &#8211; O que \u00e9 exatamente &#8220;big data&#8221;?<\/b><\/p>\n<p><b>Andreas Weigend<\/b> &#8211; &#8220;Big data&#8221; \u00e9 uma mentalidade, n\u00e3o \u00e9 algo definido pelo volume de informa\u00e7\u00f5es ou pelas ferramentas que voc\u00ea usa. \u00c9 transformar dados em decis\u00f5es.<\/p>\n<p><b>E o que \u00e9 essa mentalidade?<\/b><\/p>\n<p>Eu sou alem\u00e3o e na minha cidade natal n\u00f3s t\u00ednhamos um fil\u00f3sofo chamado Martin Heidegger, que disse que voc\u00ea s\u00f3 pensa sobre a fun\u00e7\u00e3o do machado quando ele quebra.<\/p>\n<p>Com o &#8220;big data&#8221; \u00e9 o mesmo: \u00e9 a mentalidade que faz os dados e os pensamentos sobre eles desaparecerem.<\/p>\n<p>Pense que \u00e9 como o ar: voc\u00ea n\u00e3o pensa sobre ele no dia a dia, a n\u00e3o ser que ele esteja ruim. O &#8220;big data&#8221; \u00e9 n\u00e3o pensar sobre os dados.<\/p>\n<p><b>O que poderia dar errado para que as pessoas notem os dados?<\/b><\/p>\n<p>Eu tenho um amigo que vive em cima de um sex shop em San Francisco e eu o visito frequentemente. Um dia, o Google come\u00e7ou a me mostrar an\u00fancios sobre sexo e eu fiquei surpreso. O motivo \u00e9 que o sistema de geolocaliza\u00e7\u00e3o do Google n\u00e3o funciona em tr\u00eas dimens\u00f5es, mas, sim, em duas. Ent\u00e3o ele pensa: &#8220;Ah, deixa eu ajudar o Andreas, para que ele n\u00e3o tenha de ir ao sex shop de vez em quando, para que ele possa comprar essas coisas pela internet&#8221;. Isso \u00e9 um exemplo de algo que geralmente aparece quando h\u00e1 um problema com a an\u00e1lise de dados.<\/p>\n<p><b>Algum setor ou companhia de fato entendeu como usar o &#8220;big data&#8221;?<\/b><\/p>\n<p>Temos que distinguir a coleta de dados e o refinamento deles. Eu dei uma palestra na ONU h\u00e1 dois anos em que eu dizia que o &#8220;big data&#8221; \u00e9 o novo petr\u00f3leo, porque os dados precisam ser refinados.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea s\u00f3 tem dados brutos, em muitos casos eles n\u00e3o o ajudam a tomar uma decis\u00e3o. Como no caso do petr\u00f3leo, ganham dinheiro tanto quem tem esse recurso natural, como a Ar\u00e1bia Saudita, quanto quem o refina.<\/p>\n<p>Grande parte das maiores empresas do mundo s\u00e3o do setor de petr\u00f3leo, como Exxon Mobil e Shell. S\u00e3o as companhias que transformam o petr\u00f3leo em algo \u00fatil.<\/p>\n<p>Do mesmo modo, no caso do &#8220;big data&#8221;, as grandes companhias, aquelas que v\u00e3o ganhar muito dinheiro, ser\u00e3o aquelas que transformarem essas informa\u00e7\u00f5es em produtos que permitam que n\u00f3s tomemos decis\u00f5es melhores.<\/p>\n<p>Por exemplo, o Google: pega todos os dados do mundo e mostra an\u00fancios para influenciar a decis\u00e3o das pessoas. O Google Glass \u00e9 uma m\u00e1quina coletora de dados.<\/p>\n<p><b>Nem todo mundo compartilha todos os aspectos da vida na internet. N\u00e3o h\u00e1 o risco de medir apenas o que as pessoas querem revelar?<\/b><\/p>\n<p>Meu telefone sabe melhor como eu durmo do que eu.<\/p>\n<p>Eu tenho um app que analisa o meu sono e outro que me permite tirar fotografias de comida e de um bom vinho. Ent\u00e3o o celular identifica muito melhor a rela\u00e7\u00e3o entre eu ter tomado muitas ta\u00e7as no dia anterior e ter acordado tarde.<\/p>\n<p>De algum modo, a sua operadora de celular, o Google e o Facebook conhecem voc\u00ea melhor do que voc\u00ea se conhece. Eu j\u00e1 trabalhei com sites de namoro como Match.com e eles sabem melhor no que as pessoas est\u00e3o interessadas do que elas mesmas.<\/p>\n<p>Para ser provocativo, e n\u00e3o t\u00e3o longe da realidade, os dados sabem mais sobre voc\u00ea do que voc\u00ea mesmo.<\/p>\n<p><b>Os dados podem saber. Mas as empresas j\u00e1 sabem?<\/b><\/p>\n<p>Sim, claro. Veja as recomenda\u00e7\u00f5es de livros na Amazon. Quantas vezes voc\u00ea n\u00e3o entrou no site deles e adquiriu um livro do qual eles sabiam que voc\u00ea gostaria antes que voc\u00ea se desse conta?<\/p>\n<p>O LinkedIn, por exemplo, sabe muito mais sobre as empresas do que elas mesmas, porque ele identifica a atividade dos profissionais. Essa rede social sabe mais sobre a economia dos Estados Unidos do que o pr\u00f3prio governo, porque consegue ver para onde os recrutadores est\u00e3o indo, onde est\u00e3o as oportunidades e o fluxo de empregados entre as empresas.<\/p>\n<p><b>As pessoas podem n\u00e3o se irritar por ter seus dados rastreados se v\u00e3o ter algo em troca, como uma boa indica\u00e7\u00e3o de produtos. Mas essa tecnologia est\u00e1 sendo usada nos processos de sele\u00e7\u00e3o para empregos, por exemplo. Elas podem ser prejudicadas por causa disso.<\/b><\/p>\n<p>No passado, decis\u00f5es sobre quem contratar eram baseadas em informa\u00e7\u00f5es muito limitadas. Voc\u00ea ia l\u00e1, as pessoas conversavam com voc\u00ea, o departamento de recursos humanos fazia algumas liga\u00e7\u00f5es para checar suas refer\u00eancias e era isso. Isso era antes do &#8220;big data&#8221;: voc\u00ea controlava o que colocava no curr\u00edculo e o que dizia na entrevista.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 dois lados disso: os empres\u00e1rios t\u00eam agora poder para descobrir mais sobre voc\u00ea e possivelmente usar isso contra voc\u00ea. Mas tamb\u00e9m h\u00e1 sites como o Glassdoor [em que funcion\u00e1rios e ex-funcion\u00e1rios avaliam as companhias], nos quais \u00e9 poss\u00edvel conhecer a personalidade da pessoa respons\u00e1vel pela sele\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o se voc\u00ea identifica que 5 das 6 pessoas que eles contrataram se demitiram ap\u00f3s tr\u00eas meses, quais s\u00e3o as chances de voc\u00ea fazer o mesmo?<\/p>\n<p>A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mais se queremos revelar ou compartilhar algo, j\u00e1 que informa\u00e7\u00f5es que a KGB n\u00e3o conseguia arrancar das pessoas sob tortura est\u00e3o agora dispon\u00edveis na internet. A quest\u00e3o \u00e9 o que a sociedade vai fazer com essas informa\u00e7\u00f5es. Se um empregador descobre pelo Facebook que eu sou gay, e ele n\u00e3o quer contratar homossexuais, o que a sociedade vai fazer com isso?<\/p>\n<p><b>Estamos maduros o suficiente para tomar essas decis\u00f5es?<\/b><\/p>\n<p>Precisamos tomar essas decis\u00f5es, e cada cidad\u00e3o tem que pensar nos pontos positivos e negativos desse cen\u00e1rio. N\u00e3o podemos deixar para o pessoal da tecnologia, para o pessoal que cria modelos de neg\u00f3cio, e esperar que eles fa\u00e7am a coisa certa. Essas s\u00e3o decis\u00f5es fundamentais que n\u00e3o podemos delegar.<\/p>\n<p><b>Governos devem regular isso?<\/b><\/p>\n<p>\u00c9 complicado. As consequ\u00eancias de nascer de um lado ou de outro da fronteira s\u00e3o enormes. Novas decis\u00f5es ter\u00e3o de ser tomadas com base em leis sobre dados? Por exemplo, as pessoas v\u00e3o querer viver em um pa\u00eds que garante a reten\u00e7\u00e3o dessas informa\u00e7\u00f5es ou em um que as expanda?<\/p>\n<p><b>No Brasil, est\u00e1 em discuss\u00e3o no Congresso o Marco Civil da Internet, que prev\u00ea que empresas do setor sejam obrigadas a guardar informa\u00e7\u00f5es sobre os usu\u00e1rios. O que o senhor acha disso?<\/b><\/p>\n<p>N\u00e3o tenho conselho. Nosso trabalho \u00e9 fazer as pessoas pensarem nisso. Outra met\u00e1fora poss\u00edvel para o &#8220;big data&#8221; \u00e9 a energia nuclear. Muitas pessoas creem que ela pode ser mais eficiente, mas alguns governos decidiram n\u00e3o us\u00e1-la porque os riscos envolvidos, mesmo que m\u00ednimos, n\u00e3o sobrepujam os benef\u00edcios. \u00c9 o mesmo com os dados: na m\u00e9dia, podemos us\u00e1-los para tornar o mundo melhor, mas eles tamb\u00e9m envolvem riscos.<\/p>\n<p><b>Quais riscos?<\/b><\/p>\n<p>Se dados caem em m\u00e3os erradas, pessoas podem morrer. Pense na Alemanha, onde as pessoas s\u00e3o muito preocupadas com sigilo. Hitler matou milh\u00f5es de judeus sem ter computadores. O que ele poderia fazer agora se soubesse por geolocaliza\u00e7\u00e3o quem vai \u00e0 sinagoga?<\/p>\n<pre>Fonte:&nbsp;folha.uol.com.br<\/pre>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com um smartphone e seus sistemas de GPS e c\u00e2meras, as pessoas v\u00e3o deixando rastros sobre seus gostos e desejos: os lugares que frequentam, os pratos prediletos, os amigos com os quais conversam. 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